PEGADAS
Vivo
num lugar banal, não pertenço a nenhum grupo ou legião. Pertenço ao mundo e ele
me pertence. Vivo a vida como ela me vive, infinita e loucamente. Acordo com os
pássaros ou durmo com morcegos. Os vaga-lumes me guiam quando a luz da lua é a
única que se faz presente.
Viajo.
É só isso que faço. Conheço tudo o que me desconhece, pois me apresento aos
desconhecidos. Conhecimento, embora poucos acreditem, não esbanjo ou vendo,
apenas o procuro, e quando o encontro, o perco.
Sou
um viajante do tempo, um louco sem rumo, faço o possível para me misturar, mas
quando nado só sei me afogar. Tento às vezes manter meu caminho obscuro, para
que não me descubram ou condenem, porém, acabo muitas vezes por me perder em
minha própria escuridão. E nesse intrépido caminho sem fim pelo qual percorro, encontro
somente pegadas, e nelas lembranças de uma vida talvez passada ou simplesmente
esquecida. Faço de tudo para permanecer, ou pelo menos parecer sóbrio, mas de
que são feitos os equívocos, se não de uma embriaguez de desejos e realizações
precipitadas? Sou como sou, e a nada pretendo mudar.
E
o lugar onde vivo... Talvez não seja esta a pergunta certa a se fazer, mas sim,
uma hipótese a se pronunciar. Afinal, não vivo em um lugar. Eu o tomo, depois o
deixo, parto sem rumo em qualquer direção. Tudo me pertence, e da mesma forma,
tudo me obtém. Estamos no mundo de passagem, e nossa importância é passageira
então nesse imenso lugar em que vivemos. Não julgo um lugar pelas pessoas que
nele vivem, apenas sei que certa vez passaram por ali e deixaram sua marca,
suas características e pensamentos, suas vontades e necessidades. Procuro não
rotular nada, apenas deixar todos imunes para ser quem quiserem ser.
Sou
alguém que nunca sabe o que procura. Sei, entretanto, que as coisas vêm e vão
e, não posso deixar, contudo, de usufruí-las da melhor maneira possível e
deixar minha marca por todo lugar onde passo: as pegadas... Estas, por onde
andei permanecerão, e só o tempo, será capaz de apagá-las.
Nem
todos sabem quem eu realmente sou. Talvez nem eu o saiba realmente, mas me é
suficientemente claro os meus objetivos e deveres nas estradas e caminhos em
que percorro, sou um nômade imutável, e faço de minha existência algo sublime e
indispensável. Tenho como objetivo sempre o horizonte, por isso, minha jornada
permanece sem fim.
Vivo
onde me puserem para viver, sei o que faço e onde estou. Meu caminho é longo e
imprevisível, me resta apenas decidir a quem deixar, a quem salvar, e a quem deixar
me guiar.
Nathalia Bueno
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